PIRACICABA

Piracicaba lidera ranking de municípios mais afetados por tarifas dos EUA

Uma decisão tomada a milhares de quilômetros de Piracicaba colocou o município no centro de uma das maiores preocupações do comércio exterior brasileiro. O novo pacote tarifário anunciado pelos Estado

Juliana Scudeler Salto
Juliana Scudeler Salto

Publicado em 27 de julho de 2026, 17:17 — Em Piracicaba

6 min de leitura
Piracicaba lidera ranking de municípios mais afetados por tarifas dos EUA
Piracicaba lidera ranking de municípios mais afetados por tarifas dos EUA

Uma decisão tomada a milhares de quilômetros de Piracicaba colocou o município no centro de uma das maiores preocupações do comércio exterior brasileiro. O novo pacote tarifário anunciado pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros fez a cidade aparecer como o município mais exposto do país aos possíveis impactos das novas medidas, com aproximadamente US$ 1,19 bilhão em exportações potencialmente atingidas.

O levantamento divulgado pelo Estadão, com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e da Amcham Brasil, mostra que Piracicaba lidera com ampla vantagem o ranking nacional de cidades mais vulneráveis ao chamado tarifaço americano.

A diferença em relação aos demais municípios chama atenção. São Paulo, que aparece na segunda colocação, concentra cerca de US$ 239,4 milhões em vendas externas que podem sofrer impactos das novas tarifas, valor quase cinco vezes menor que o registrado por Piracicaba. Na sequência aparecem Joinville (SC), com US$ 229,9 milhões, Serra (ES) e Petrópolis (RJ), ambas com aproximadamente US$ 216,1 milhões.

O cenário coloca Piracicaba em uma posição estratégica, mas também de alerta. Embora o valor estimado não represente uma perda automática das exportações, ele indica o volume de produtos que pode enfrentar dificuldades diante do aumento dos custos para entrada no mercado norte-americano.

Na prática, a preocupação está relacionada à perda de competitividade. Com tarifas mais elevadas, produtos brasileiros chegam mais caros aos compradores dos Estados Unidos, o que pode levar empresas estrangeiras a buscar fornecedores de outros países ou pressionar fabricantes nacionais a reduzir margens para manter contratos.

A exposição do município está diretamente ligada ao perfil econômico de Piracicaba, reconhecida como um dos principais polos industriais do interior paulista.

A cidade reúne uma cadeia produtiva diversificada, com empresas ligadas principalmente à fabricação de máquinas e equipamentos utilizados pelas indústrias agrícola e automotiva, além de segmentos como produtos químicos orgânicos, papel e etanol.

São justamente essas áreas que estão entre as mais atingidas pelas novas medidas comerciais adotadas pelos Estados Unidos.

A relevância da cidade no comércio internacional está ligada à presença de uma indústria que abastece setores estratégicos da economia brasileira, especialmente o agronegócio e a cadeia sucroenergética. Por isso, os reflexos do tarifaço podem ultrapassar as empresas exportadoras e alcançar fornecedores, prestadores de serviços, transportadoras e outros segmentos ligados à produção industrial.

O levantamento considera como referência as exportações realizadas em 2024, antes da nova escalada tarifária, e analisa os grupos de produtos brasileiros mais vulneráveis às mudanças na política comercial norte-americana.

As novas cobranças foram estabelecidas pelo governo dos Estados Unidos com base na chamada Seção 301 da legislação comercial norte-americana, mecanismo utilizado pelo país para investigar práticas comerciais consideradas prejudiciais aos seus interesses.

Uma das medidas criou uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros. Posteriormente, uma segunda cobrança acrescentou 12,5% sobre mercadorias incluídas em uma investigação relacionada às políticas de prevenção e combate ao trabalho forçado nas cadeias globais de fornecimento.

Quando um mesmo produto está enquadrado nas duas medidas, os percentuais são acumulados e podem resultar em uma sobretaxa total de 37,5%.

Esse cenário atinge principalmente produtos industriais, incluindo diferentes tipos de máquinas e equipamentos, justamente um dos segmentos de maior relevância econômica para Piracicaba.

A investigação que levou à tarifa adicional de 25% foi direcionada especificamente ao Brasil. Já a medida relacionada ao trabalho forçado envolve diferentes parceiros comerciais dos Estados Unidos. A nova cobrança substituiu uma tarifa temporária de 10% que estava em vigor desde fevereiro.

Entre os setores brasileiros que podem sentir os efeitos das novas tarifas estão máquinas e equipamentos, madeira, rochas naturais, calçados, gorduras e óleos de origem vegetal e animal, além de outros produtos industriais.

Em Piracicaba, a maior preocupação está concentrada nas atividades ligadas à fabricação de máquinas e equipamentos, produtos químicos, papel e etanol.

Apesar de o impacto inicial atingir principalmente empresas envolvidas no comércio exterior, os efeitos podem se espalhar pela economia local. Uma redução nas vendas internacionais pode influenciar decisões de investimento, produção e contratação dentro das cadeias industriais relacionadas.

De acordo com o levantamento baseado nos dados do MDIC e da Amcham Brasil, Piracicaba aparece em primeiro lugar entre os municípios brasileiros com maior volume de exportações potencialmente atingidas.

A cidade soma US$ 1.192.788.730, seguida por São Paulo (SP), com US$ 239.421.839; Joinville (SC), com US$ 229.964.958; Serra (ES) e Petrópolis (RJ), com US$ 216.172.789 cada; Suzano (SP), com US$ 191.958.199; Campo Largo (PR), com US$ 184.115.555; Cachoeiro de Itapemirim (ES), com US$ 178.682.978; e Guarulhos (SP), com US$ 176.810.709.

A distância entre Piracicaba e os demais municípios evidencia o peso da indústria local nas exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano.

Segundo dados do MDIC, as duas novas medidas comerciais atingem uma parcela significativa das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos.

Do total vendido pelo Brasil ao mercado norte-americano em 2024, 16,5% das exportações, equivalentes a aproximadamente US$ 6,6 bilhões, estão sujeitas simultaneamente às duas tarifas e podem alcançar uma sobretaxa acumulada de 37,5%.

Outros 4,7% das exportações, cerca de US$ 1,9 bilhão, estão submetidos apenas à tarifa adicional de 12,5%.

Já 1,9% das vendas, aproximadamente US$ 800 milhões, enfrentam exclusivamente a cobrança adicional de 25%.

Por outro lado, 52,7% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos, equivalentes a cerca de US$ 21,3 bilhões, permanecem fora das novas sobretaxas.

Outros 24,2% das vendas, ou aproximadamente US$ 9,8 bilhões, continuam submetidos às tarifas específicas previstas pela chamada Seção 232, aplicada pelos Estados Unidos a determinados produtos sob justificativa de segurança nacional, como aço e alumínio.

O novo cenário comercial ocorre em um momento de redução das vendas brasileiras para o mercado norte-americano.

Depois de alcançar o recorde de US$ 40,4 bilhões em exportações em 2024, o Brasil registrou queda para US$ 37,7 bilhões em 2025.

No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras aos Estados Unidos somaram US$ 17,4 bilhões, uma redução de aproximadamente 13% em comparação com o mesmo período anterior.

Entre os produtos que apresentaram maior retração estão o petróleo bruto e produtos semiacabados de ferro e aço.

Com a queda nas vendas, a participação dos Estados Unidos no total das exportações brasileiras também diminuiu, passando de 12,1% no primeiro semestre de 2025 para 9,4% no mesmo período de 2026.

O governo brasileiro considera as novas tarifas injustificadas e avalia possíveis respostas por meio dos mecanismos previstos na Lei da Reciprocidade.

Apesar da possibilidade de reação comercial, representantes do setor produtivo defendem cautela para evitar uma escalada de medidas que possa ampliar os impactos sobre empresas brasileiras dependentes do comércio internacional.

O presidente da Amcham Brasil, Abrão Neto, defendeu a retomada das negociações entre os governos brasileiro e norte-americano como alternativa para tentar reduzir os efeitos das novas cobranças.

O tarifaço mostra como decisões tomadas no cenário internacional podem provocar reflexos diretos na economia local.

Para Piracicaba, os próximos meses serão importantes para entender como compradores norte-americanos irão reagir ao aumento dos custos, se contratos serão renegociados e se empresas precisarão buscar novos mercados para preservar sua competitividade.

Mais do que um impacto sobre números de exportação, o cenário representa um desafio para um dos principais polos industriais do país: manter a força de uma economia baseada em inovação, produção industrial e conexão com o mercado global.

Em meio a uma nova fase de disputas comerciais internacionais, Piracicaba acompanha de perto uma decisão que ultrapassa fronteiras e pode influenciar os rumos de empresas, trabalhadores e cadeias produtivas da região.

Crédito Foto: Reprodução Internet

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